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Mar 15, 2015

[Residência] [processo] A Tensão.04 - Radiação e música eletromagnética: experimentações musicais/sonoras/artísticas com rádios e bobinas.


A partir da compreensão das ondas e campos eletromagnéticos como produtores/geradores de som podemos incluir, além de instrumentos específicos (como o telharmonium e theremin) objetos e equipamentos que utilizam ou se contaminam com o princípio das ondas eletromagnéticas para por exemplo:

1) receber informação transmitida intencionalmente.

2) receber e transmitir por interferência campos eletromagnéticos.
3) fazer mapeamento de áreas onde ocorrem essas ondas

O rádio é sem sombra de dúvidas o mais popular, low-fi  e versátil sensor de ondas eletromagnéticas de todos os tipos! Ele pode tanto receber ondas de rádio naturais como as VLF presentes em tempestades ou fenômenos atmosféricos como as artificiais tipo AM e FM. Outra potencialidade dele é que pode se contaminar via interferência por campos eletromagnéticos de curta distância (como celulares, fontes de energia, transformadores, luzes, etc.).


Logo, o rádio se torna um instrumento muito completo passível de manipulação instrumental intencional (com gestos, articulações, dinâmica, etc) mas também com um adendo importante que é a origem dos sons que o alimentam. O material sonoro é externo e podemos através dele escutar crítica e socialmente a sociedade, fazer recortes em seus discursos, sintonizar ou gerar ruídos e interromper suas mensagens.

1) Experimentos com rádio - receber informação transmitida intencionalmente.


John Cage
Foi um compositor americano (1912-1992) que também era filósofo, escritor e artista. Cage foi pioneiro no uso de indeterminismo na música, música eletroacústica e uso não tradicional de instrumentos musicais. Sendo uma das figuras chave das vanguardas pós-guerra e determinante para as transformações musicais da música da segunda metade do século XX.

"Radio Music" 1956

Durante a década de 50 a televisão era apenas uma criança enquanto o rádio estava chegando ao fim da sua era dourada. Radio Music é uma peça para 8 rádios e foi composta usando combinações de frequências a partir da teoria da probabilidade. A partitura indica 56 frequências diferentes entre 55 e 156kHz, notadas com números e letras. De "A" a "H" os performers seguem uma sequências de sintonias de rádio (números) e silêncio (linhas). Obviamente a cada performance o resultado do conteúdo das estações é diferente.




















Performance de Radio Music pela International Contemporary Ensemble

https://vimeo.com/53527521

"Imaginary Landscape No4" 1951

A série de paisagens imaginárias foram escritas para instrumentos tradicionais e instrumentos que requerem eletricidade e a idéia foi criar paisagens imaginárias, porém, ao mesmo tempo, indicadoras de um futuro por vir onde sons urbanos, de instrumentos, eletrônicos e rádios seriam uma paisagem sonora comum nas grandes cidades. Na paisagem número 4 são utilizados somente rádios, um total de 12, tocados por 24 performers (cada dupla toca um rádio). A partitura fornece indicações de sintonia (controlada pelo player 1) e de volume (controlado pelo player 2). As combinações dos dois parâmetros para gerar a peça com articulações de duração e dinâmica foram geradas através de probabilidades extraídas do I Ching. Ou seja, essa peça utiliza de maneira mais tradicional a partitura e os parâmetros musicais, incluindo o pentagrama, a fórmula de compasso e a presença de um regente. Contudo, a cada performance o resultado, como em Radio Music, é diferente porque as estações não são pré definidas e incluem também estações vazias e ruído branco.




















Performance Mostra Sounds Like Silence da Hartware MedienKunstVerein de Dortmund.

https://vimeo.com/49007247

FM Keyboard v.1.0 de Vasco Alvo
Um instrumento híbrido de teclado e rádios. 12 rádios são desmontados remontados conectados em uma oitava de um teclado. Cada uma das 12 teclas controla o ligar e desligar dos rádios sintonizados em estações FM. Dessa maneira, ao tocar o teclado você liga e desliga os rádios que cada hora estarão tocando coisas diferentes. Ou seja, você pode usar a tocabilidade ou analogia de notas e acordes para tocar as estações.















FMKeyboard ao vivo.

https://www.youtube.com/watch?v=rTx3P4XbxeY#t=71

2) Receber e transmitir por interferência campos eletromagnéticos.


O comprimento do fio de cobre enrolado nas bobinas é o que afeta sua sensibilidade a diferentes frequências do campo eletromagnético. É por isso que o dial do rádio é ajustável e móvel, para ajustar o comprimento do fio, logo das ondas, que ele vai conseguir sintonizar. Esse conhecimento é importante para compreender a construção artesanal de captadores de campos eletromagnéticos. 

As chamadas V.L.F (very low frequenciy) são ondas de rádio naturais-atmosféricas que podem ser captadas e medidas por instrumentos específicos mas também com bobinas feitas em casa. Como são frequências muito graves, ou seja, com comprimento de onda muito grande, é necessário enrolar muitos metros de fios de cobre em um pedaço de madeira grande para gerar a bobina que consegue sintonizar os V.L.F. De aficionados por noise e eletrônica D.I.Y, aos estudiosos de field recording extremo e metereologistas amadores, esse tipo de onda "selvagem" é difícil de ser ouvida pois é encoberta facilmente pelas cidades. É necessário ir locais remotos para ouvir a energia eletromagnética que cruza o céu. A experiência Sui Generis de escuta de ondas V.L.F são as tempestades elétricas, chuva de meteoritos e a aurora boreal.


Lauren Carter e Joe Grimm: experimentos com pipas e V.L.F.



















Para ver e ouvir o experimento:

https://www.youtube.com/watch?v=4YgAi4eiU7U

Boas histórias e experimentos dos primórdios da computação musical são as de que se colocavam rádios sobre os processadores dos computadores antigos e eram escritos programas com instruções cíclicas. Esses ciclos eram calculados de maneira a emitir uma sequência de tarefas no processador cuja emissão eletromagnética gerava padrões sonoros que eram captados pelos rádios.


Infelizmente não consegui encontrar exemplos desses aparatos na internet porém, no livro Handmade Electronic Music*, Nicolas Collins menciona a instalação de Gert-Jan Prins e David First na exposição "Sub-V" no laboratório STEIM em Amsterdam como uma recriação dos processos acima. 


*Capítulo 1 - Circuit Sniffing: Eavesdropping on Hidden Magnetic Music, pág.15.



3) Fazer mapeamento de equipamentos e rotas na cidade onde ocorrem grandes concentrações dessas ondas.

Por volta dos anos 70 a artista alemã Christina Kubisch começou a usar indução eletromagnética para transmitir campos sonoros em fios que ela organizava em espaços e salas de exibição de maneira a formar labirintos sonoros. Eles eram montados em instalações onde as pessoas caminhavam pelos labirintos com fones especialmente feitos para captar esses campos eletromagnéticos.  em 2003 ela deu início a uma outra série de instalações site-specific chamada "Electrical Walks". Dando seguimento a pesquisa de décadas anteriores, os fones agora já bem mais desenvolvidos são utilizados para escutar "marcos sonoros" nas cidades resultantes de sinais eletromagnéticos emanados de fios de energia, postes, maquinaria pesada, portas automáticas, caixas eletrônicos, elevadores, etc. Esses marcos são vasculhados e mapeados e em seguida, experimentados pelas pessoas que com os fones, seguem os mapas das Electrical Walks.


Sound Labyrinths - 1970 


 























E abaixo, as Electrical Walks com mapa:

Mar 5, 2015

[Residência] [processo] A Tensão.02 - histórico prédio RedBull / subestação Riachuelo



A pesquisa sobre o histórico do prédio da Red Bull foi um dos starts para entender melhor a questão da ex-subestação de energia que aqui se situava. Em cada atelier havia um gerador resultando em um possível ultra campo eletromagnético localizado ao redor de cada um deles. A pesquisa com a sonoridade dos rádios como captadores e "visualizadores" ou sonificadores de campos eletromagnéticos se empobreceria muito caso esse histórico não fosse levado em consideração. A partir dessa pesquisa, interessantes fatos foram revelados sobre a presença da Light em São Paulo em seus primórdios, além da constatação que desde 1930 a cidade já era considerada um ostensivo exemplo de gasto de luz e energia.

São Paulo Trainway Light and Power


Em 7 de abril de 1899, em Toronto, no Canadá, foi fundada a empresa que em 17 de julho do mesmo ano, foi autorizada, por decreto do presidente Campos Salles, a atuar no Brasil. Sua atuação em São Paulo começou no mesmo ano, através da construção da Usina Hidrelétrica Edgard de Sousa em Santana de Parnaíba, concluída em 1901. Posteriormente, então conhecida somente como Light São Paulo a empresa entra em franca expansão, passando a operar todos os serviços de geração e distribuição de energia elétrica, iluminação e os serviços de bondes elétricos do município de São Paulo, uma revolução para a época, quando havia apenas bondes puxados a burro.

Entre 1900 e 1930, a Light São Paulo realizou inúmeras obras de expansão dos serviços de energia elétrica na capital de São Paulo e municípios vizinhos, construindo em 1908 a represa de Guarapiranga e usinas hidrelétricas, como Edgard de Souza e Rasgão, localizadas no Rio Tietê, em Santana do Parnaíba, a 40 quilômetros da capital. Eram obras necessárias para acompanhar o crescimento econômico e populacional da cidade e arredores além do consecutivo aumento do consumo de energia elétrica.




A Light durante seu período áureo era acusada de sufocar concorrentes, como a Companhia Água e Luz, principalmente depois que a Câmara Municipal concedeu a ela o monopólio de todos os serviços elétricos da cidade. No auge da atuação da empresa em São Paulo ela recebeu um apelido satírico, crítico a influência da empresa, que era “Sao Paulo Light & Too Much Power” ou “São Paulo Luz e Poder Demais”. Ainda hoje, pais e avós, que viveram na época da Light, reclamam das elevadas contas de energia elétrica atuais dizendo "vocês acham que eu sou sócio da Light?", numa prova de que o nome da empresa extinta ainda é forte no inconsciente coletivo paulistano.

Aqui tem interessante artigo analisando o monopólio da Light nesse período, dando inclusive insights bem importantes relativos ao uso dos rios e bacias hidrográficas de SP como o próprio Tietê para esgoto, energia e transportes. Questões que desde a época (1900-1920) eram bem polêmicas e causavam prostestos da população.
http://ensaiosfragmentados.blogspot.com.br/2010/05/analise-sao-paulo-tramway-light-and_21.html

Em meados da década de 1940, a Light São Paulo encerra os serviços de transporte público por meio de bondes elétricos, repassando-os à prefeitura de São Paulo, através da CMTC, que extinguiria o serviço de bondes no fim dos anos 1960. Na década de  70 o contrato de concessão da Light com o governo federal, válido por 70 anos, expirou. A Light de São Paulo foi adquirida pelo Governo do Estado de São Paulo em 1981 e renomeada para Eletropaulo.

Subestação Riachuelo / Red Bull Station
Em 1926 a empresa decidiu criar uma nova subestação na Cidade de São Paulo para gerenciar a distribuição de energia para os bondes do centro da cidade. O local escolhido foi onde hoje é o encontro da Avenida 23 de Maio com a Rua Santo Amaro, bem do lado da Praça da Bandeira. Logo depois de ser inaugurada a unidade passou a ser conhecida como Subestação Riachuelo, em alusão a Rua Riachuelo. O prédio ficou abandonado dos anos 2000 até 2012.

 










Em 2000 o Conpresp tombou a fachada do imóvel, para evitar uma descaracterização ou demolição e desde então ele recebeu muito pouca atenção da concessionária de energia, raramente recebendo pintura, sendo alvo de pichações e tendo boa parte de seus vidros quebrados. Os fundos da subestação se tornaram local de abandono de gatos e por muitos anos dezenas deles eram vistos por lá ou na calçada (inclusive o sumiço abrupto dos gatos quando declarada a revitalização do prédio é um mito urbano na região, ninguém sabe o que aconteceu).

Em 2012 o prédio foi comprado pela Red Bull e após reforma pelo escritório de arquitetura franco-brasileiro Triptyque se transformou na Red Bull Station, projeto cultural da marca que abriga residências artísticas, exposições, estúdio de música e diversos projetos artístico-gastronômicos-musicais.










Fontes:
http://www.saopauloantiga.com.br/subestacao-riachuelo/
http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Paulo_Tramway,_Light_and_Power_Company

Mar 3, 2015

[Residência] [processo] A Tensão.01








O primeiro trabalho desenvolvido aqui na RedBull foi uma performance chamada "A Tensão".  Esse projeto é uma composição eletroacústica que investiga:

1) campos eletromagnéticos de objetos do cotidiano x histórico do prédio da RedBull que até 2004 foi uma estação de distribuição de energia da Light.

2) o rádio como instrumento sonoro mediador/transdutor de campos eletromagnéticos

3) a composição e a performance como estratégia e metodologia de investigação artística de um objeto.

4) a partitura como roteiro possível dessa investigação.

5) a iluminação e filmagem/registro como parte da obra.

Logo mais posts sobre os processos desse trabalho e os itens acima.

Feb 26, 2015

[Residência] Tateando, reconhecendo território.

A idéia inicial da residência era desenvolver um grande projeto que durasse 3 meses mas de cara isso já ficou para trás. Com minhas questões particulares quanto a necessidade de desenvolver diferentes tipos de trabalho além do evento de boas vindas que surgiu na primeira quinzena no qual teríamos que de cara apresentar algo optei por pequenas idéias, grandes avanços nos meus objetivos.

Bom, quais são os assuntos que eu gostaria de investigar por aqui, ou, melhor, A PARTIR daqui:

- o som na dimensão da instalação (outras relações com tempo, escuta, propostas de escuta).

- o gesto na dimensão da performance (não apenas o que tocar mas como tocar).

- o som e o ruído ampliados no sentido da percepção e do afeto e não da ampliação confiada estritamente ao volume.

- a possibilidade de contínua transformação do trabalho de um meio para o outro de maneira que ele não morra na performance ou na instalação. ou seja: uma performance pode virar um video, da mesma maneira que uma idéia sonora pode virar uma instalação com fotografias e fones de ouvido, etc, etc. não me limitar a pensar sempre em tocar.

- a partitura (em todas as conotações e aberturas de definição que ela implica) como uma tradução intersemiótica de algumas idéias e caminhos de processo que ficam muito invisibilisados em minhas performances.

Enquanto isso, sigo lendo e estudando referências de livros, textos, trabalhos e portfolios de arte e música contemporânea para tentar entender melhor as questões postadas anteriormente, bem como fazendo meus próprios experimentos por aqui para tentar ilustrar/sonorizar essas idéias. Afinal, como a Lilian Campesato bem colocou em uma conversa que tivemos por aqui: de nada adianta querer atingir esses universos de uma maneira que não passe pela suas próprias referências e experiências com som/música/arte até aqui.

Preciso escrever as reflexões sobre experimentação/experimental a partir  do curso que fizemos de Arte Sonora: a música e seus desvios com a colega citada acima. Os posts a partir de agora serão relacionados a isso: pesquisa e processo.




Feb 24, 2015

[Residência] Primeiros dias: notações possíveis para o desapego de quem fui/quem sou. *

Muitas questões surgiram a partir do início dessa residência de 3 meses. Em alguns aspectos, estão relacionadas ao fato de ha algum tempo eu não estar me perguntando questões relacionadas ao meu trabalho. Em algum nível eu estava confortável e ou desinteressada em a defini-lo melhor. Creio que estar trabalhando ha muito tempo com as mesmas performances e também com workshops ou atividades educativas tem grande papel nessa falta de perguntas. Por outro lado, não é como se eu estivesse em um momento super afirmativo, ou seja, certa e segura, cheia de respostas, portfolio e projetos engatilhando constantemente em residências, editais, exposições, projetos, etc.

Ou seja, creio que essa residência chegou em bom momento para começar a organizar meu trabalho do ponto de vista de quem tem hoje 31 anos de idade e passou por diversas experiências e fases e deixar de organizar e pensar o meu trabalho como uma sobreposição e justaposição de fases, momentos, obras, performances que vão se alinhando em novas páginas em sites, registros em vimeo ou linhas e mais linhas no currículo.

A cada ano que passa em que atualizo o currículo sinto que as linhas que passaram não mais me representam, bem como as linhas que surgem são em algum nível re-organizações de idéias velhas ou apenas necessidade trabalhistas. Por exemplo: "deu o workshop X ou Y nos lugares 1, 2, 3, 4, 5" ou então "realizou a performance Z nos anos de 2014, 2013, 2012, 2011", etc. Como algumas pessoas tem me falado por aqui, você tem que escolher se seu portfolio será uma seleção de suas obras, se ele será um diário dos seus processos, se o trabalho X ou Y são de fato interessantes para você ou uma obsessão que nada lhe fortalece ou transforma ou indica novos caminhos. Enfim, não acho que nenhuma dessas coisas são uma verdade a ser seguida ou uma fórmula para organizar e transformar seu portfolio mas que devemos ter consciência da sua presença e existência. Não quero que meu portfolio e site seja metade diário, metade, currículo, metade obsessão, metade zine, metade partitura, metade video, metade audio, metade autoral, metade colaboração. Nem existem tantas metades em uma coisa. Ou seja, se cada uma dessas coisas é uma parte, preciso entender melhor o espaço que elas ocupam na minha vida e talvez hoje em dia não seja o mesmo espaço que um dia ocuparam. Se um dia foi metade, talvez hoje sejam 1/5 ou talvez nada. Ou, ainda, talvez eu precise liberar uma metade, independente do que contém a outra metade ou as outras partes, para uma nova ocupação e fluência que ainda não sei que forma ou espaço ocupará!

Consegui organizar em 5 itens os objetivos/questionamentos* atuais dessa residência. Alguns são profissionais, outros mais filosóficos, outros mais práticos.

1) Quais são as características do meu trabalho e quais os meus objetivos e questionamentos como artista?

2) Como organizar e apresentar um portfolio cuja maioria dos trabalhos estão em audio e vídeo de maneira a representar as questões apresentadas na questão 1? E, de maneira mais técnica, quais plataformas utilizar? PDF, navegação em site, keynote, brain, openoffice, video reel, podcast?

3) Existe um gap no meu portfolio. Em primeiro lugar, é necessário desenvolver uma trama que comporte os diferentes formatos (performance, instalação, trilha, autoral, colaboração, etc). Em segundo lugar, todos esses trabalhos são do domínio do efêmero cujos registros não tem potência de se tornarem obras em si e, ao mesmo tempo, cuja reprodução (no caso de performance) são difíceis de atingir e organizar devido ao caráter improvisado e DIY da maioria deles. Esse caráter DIY e efêmero é resultado de uma escolha estética e técnica ou de uma deficiência estética ou técnica?
Se a resposta for "uma escolha", não há justificativa de porque esses trabalhos não foram registrados de maneira mais profissional ou não tem possibilidade de serem feitos novamente ou transformados. Se a resposta for uma deficiência, então é uma justificativa de porque os trabalhos tem registros bonitos mas tem existência curta e não fértil. "like a hack: beautiful but short lived like a butterfly". Creio que essa é uma questão essencial para pensar os próximos trabalhos. Não quero que meus trabalhos sejam uma sobreposicão ou justa posição eterna de linhas em um porftolio, cada qual apontando para um lado. Quero trabalhos férteis e fartos. Trabalhos que possam ser enviados para lugares com ou sem minha presença, cujos registros possam ser obras em si, cuja existência envolva um desdobramento de meios e idéias. Ou seja, creio que cheguei em um ponto, o do tal gap que quis dizer lá em cima, onde preciso sair dos meus próprios clichês e investigar outros meios, outras maneiras de fazer, registrar, criar, etc.

4) Quais são as coisas que tenho vontade de criar e pesquisar aqui/nesse momento? Quais são os desafios? Fazer coisas que estou acostumada a fazer com outras metodologias ou fazer coisas que nunca fiz com os mesmos métodos que costumo usar?

5) Quais são os textos, conversas, assuntos, grupos de estudo, oficinas, influências e afetações que me estão sendo possibilitadas aqui de maneira a jogar luz nas questões acima e potencializar as transformações que busco?

* nota para self: jamais esquecer do privilégio que vc tem/está tendo de, antes de qualquer coisa, estar se fazendo essas perguntas. 


Dec 11, 2011

[Restelinha/Palmas #3] Impressões sobre Palmas

Tão Grande, Tão Longe, Tão vazia, Tão distante...

praia de concreto

Tudo grande, novo, vazio, molhado, iluminado, distante. Sempre avistando horizontes. Em termos de cidade, confesso que é algo bem novo pra mim. Vinda de Belo Horizonte, a cidade com menos horizontes e espaços amplos do Brasil e vivendo em São Paulo, a cidade mais sem céu desse país, estar em Palmas é como estar em alguma história da construção de Brasilia ou de prosperidades das fábulas das grandes BR's que cortam o centro-oeste brasileiro. Na interseção entre Goiás, Pará, Mato Grosso, Bahia e Maranhão, Palmas é o centro geodésico do Brasil, ou seja, se o país fosse pendurado por uma cordinha, seria em Palmas o ponto do equilíbrio onde essa cordinha seria amarrada.

DSC01811

´E quase impossível andar a pé em Palmas. Tudo é feito para se andar de carro ou onibus. Não existem lojinhas nas ruas, tudo é recuado da rua, os quarteirões são tão grandes que se chamam super-quadras, e, o sol não tem limites. Algumas pessoas se aventuram a andar com sombrinhas. Essa é uma típica rua de Palmas. Uma grande via ou avenida em linha reta, conectando rotatórias a rotatórias infinitas típicas de cidade planejada. Essas vias principais muitas vezes são acompanhadas de lugares nada urbanizados. Tudo é meio pelas metades. Os caminhos são todos delineados mas não existe muitas vezes ninguém ou nada ocupando esses espaços vagos, ou seja, resultado de uma cidade planejada para um milhão de habitantes com 200.000 apenas vivendo. Ainda não entendi se muitas ruas e construções são fachadas para todo o vazio que existe na cidade, ou, se isso tudo vazio é mais uma manifestaçnao do potencial capital em potencial. Fora o futuro, a real população de Palmas mora nas periferias e nessas zonas tangentes aos grandes centros e avenidas e a cidade não é construida para a população interagir e viver a cidade e sim ser transportada de uma lado ao outro através dos eixos.

Outro dia estava no ponto de ônibus, em uma estação intermediária entre a periferia e a cidade (uma distância de 25 kilometros para chegar ao centro) e achei absurda a sensação que tive sentada nesse ponto de ônibus. Nesse dia desci do ponto no lugar errado, no meio do nada, sozinha, sem informação nenhuma no ponto. Perguntei a umas pessoas como chegar e nenhuma tinha idéia de onde era meu destino. Claro, nem tinha esperanças porque a cidade é tão espalhada e (des)codificada que é desesperante ter que pedir informação sabendo que não saberão lhe informar. "Onde fica a quadra NE-X do quarteirão 602-C ?" Para completar, gastei todo o dinheiro pegando mais ônibus porque errei o caminho. Não tinha dinheiro pra voltar. Não teria como achar nenhum banco no raio de kilometros e kilometros. Ainda bem que consegui uma carona pra voltar depois.  Esse era o ponto de ônibus:

DSC01806

Sentada no ponto olhando para a esquerda via a estrada. Olhando pra frente, via a imagem abaixo.

DSC01823

As vezes da vontade de deixar a cidade e simplesmente sair andando pro meio de tanto lugar abandonado. Sair entrando nas vias e nas beiras de estradas em busca de lugar algum. Agora, ainda no mesmo ponto de ônibus, olhando pra trás:

DSC01808

Se não fosse pelas banquinhas que algumas pessoas locais montam atrás desses pontos, seria impossível ter uma agua no sol de meio dia esperando um ônibus. Muitxs inclusive almoçam nessas banquinhas porque saem do trabalho ou da faculdade no meio do nada e não tem pra onde ir ah não ser os pontos de ônibus.

ponto de onibus na entrada da cidade

O mais bizarro é que toda essa amplitude e espaços vazios não são algo interessante, ou, digamos, que areja ou torna agradável essa capital. Isso não é uma cidade com bastante area verde mas uma cidade vazia em busca de empreendimentos, crescimento, concreto e oportunidades de negócios. Lema da cidade: Palmas, aqui sou mais feliz.  Tem gente do Brasil todo aqui, do sul, nordeste, sudeste, norte. Muitos e muitas vem recomeçar sua vida em Palmas, nessa cidade de apenas 22 anos de idade. Todxs que moram aqui viram a cidade ser construida.

traseira de caminhão com desenhos em madeira

Lados positivos e negativos disso. Não tem nada para fazer aqui, não tem cultura própria, não tem identidade. Por outro lado, todo mundo tem emprego, tem o que fazer, tem muito a construir, a se estruturar. Tem muito carro de som, igreja, buteco. Em meio  as luzes fortes da vida de novela da globo, dos sons altos da musica machista da moda, do carro mais bombado do quateirão,  da normatividade representada em cada esquina, existe gente legal e simples tentando fazer diferente. Tanto gente que nunca saiu do quarteirão aqui, como gente que veio de outras cidades e até paises.

Tento seguir com o trabalho por aqui fazendo o que tem que ser feito e tentando existir como pessoa também nesse contexto tão bizarro de cidade. Sobre a questão do transporte, sigo pegando muitos ônibus para ir para o centro mas fiz uma barganha na bicicletaria do bairro para poder me locomover na região aqui da periferia! No fim das contas, a bicicleta é definitivamente o meio de transporte mais utilizado nas subregiões e periferias. Todo tipo de gente anda de bike, idosxs, crianças, adultos, casais, pessoas sozinhas, até uma pessoa levando um fogão na bike eu já vi! rs

Tcharan! Minha locomoção DragonballZ!

Oficina Bom pedal


Sep 6, 2010

Ecosono Update

Durante o mês de Julho/2010 participei da residência para artistas sonoros ECOSONO. Realizei alguns updates aqui no blog relacionados ao diário da viagem. Muitos trabalhos vieram em seguida e não pude continuar os updates. A partir de agora vou dar sequência as outras atividades que se seguiram, e, até o final do ano, devo fazer o upload em uma sessão do humanifestation.net dos trabalhos originados na residência! Aqui estão algumas imagens enviadas pelos participantes da viagem no mar do Caribe.

ECOSONO Caribbean Documentation

Jun 20, 2010

Russeau- Ilha de Dominica



Na ilha de Dominica fomos em um barquinho alugado procurar as baleias e os golfinhos ao redor da ilha. O barco era equipado com hidrofones da CETACEAN. Putz, muito foda, é uma empresa de instrumentação bioacústica então eram muito sensíveis e confiáveis. O pessoal do barco sabia mais ou menos onde ir, mas, na verdade, chegávamos nos lugares, desligávamos tudo, ligavamos os hidrofones que funcionavam meio como sondas para tentar identificar a presença das baleias. Depois de repetir esse processo varias vezes sem sorte, um grupo de golfinhos acabou por interceptar nosso barco! Ques bichinhos mais lindos e fofos e simpáticos. Passaram brincando e saltintando ao redor do barco! Estávamos com os motores ligados ainda então os hidrofones não estavam na água...


(matthew checking the hidrophones)
Depois de continuar a procura sem sucesso por muito tempo, acabamos por ouvir as baleias nos hidrofones e descobrimos sua localização. Nesse momento uma leve decepção nos ouvidos. A espécie de baleias que encontramos eram as SpermWhales (não sei o nome em português). Essas baleias são conhecidas assim por terem por característica seu enorme esguicho de agua pelo orifício das costas. Esse tipo de baleia não canta. O único som que emitem são uns estalinhos, tipo estalinhos de língua. Conseguimos ouvir as baleias e grava-las, mas, certamente, o mais interessate dessa vez foi ve-las! Quando passei o olho naquele mamífero deslizando pelas águas, esguichando e finalmente mergulhando para passar mais não sei quantas horas, ha sabe-se lá qual profundidade meus olhos enxeram de lagrimas. Lembrei um pouco dos elefantes na Namíbia. Ha realmente algo de muito forte na simples presença desses animais incomuns ao nosso cotidiano.